O Último Mergulho (O Último Mergulho) 1992

O último mergulho, filme de João César Monteiro , é um poema colocado sob o signo da passagem. Da transitividade, melhor dizendo. O filme começa como uma comédia de costumes- uma farsa- e se encaminha para a elegia com o titubeio e a delicadeza com que os moribundos se encaminham para a nova máscara. Há uma passagem de tom, de foco e de atmosfera, mas não só; passagem do amor vendido, vilipendiado do velho decaído para o amor elegíaco, reconciliado do casal. Quando esta conversão se dá, Mefistófeles ( o velho) pode morrer, e um novo mundo pode emergir. Outra coisa notável no filme é a diferença qualitativa do desejo, em relação por exemplo aos filmes da trilogia de Deus. Naqueles filmes, o desejo- este princípio luciferino-taumatúrgico de negação das convenções e consequente refiguração/trans-figuração do real-, é predatório por excelência; pesado, tumefacto, inclemente confrontação do sujeito carnívoro e do objeto. João de Deus é a máscara fatal- e final- de Lúcifer, o velho e bom alquimista de formas , fazendo e desfazendo, no seu cadinho infernal, as figuras do mundo.Monteiro está mais para Lautréaumont do que para Rimbaud, nestes filmes; o desejo, ao negar o real, no qual se situa o objeto, ameaça destruí-lo também; a prostituta de Recordações da casa amarela, o cãozinho morto neste filme, as “incautas” da sorveteria de João de Deus, o anjo extraviado de Bodas de Deus são objetos sacrificiais para o demoníaco orquestrador de rituais. A pedra de toque destes rituais vampirísticos. Em último mergulho, ao contrário, o desejo do casal não conserva nada deste caráter predatório; ele é pura troca, fluida transferência de forças. Não se estagna ou fixa em um objeto parcial, espaço-tempo esquizofrênico ou cripta nosferática ( as mansões da trilogia) para o qual o feiticeiro arrasta suas vítimas para nelas consumir ( e castrar) sua fome de mundo. Uma exponencialmnente frustrada e raquítica fome de mundo e de ser. Este desejo desinvestido de posse e dominação, em Último mergulho, eu chamaria de desejo-promessa, desejo de por-vir. A referência a Holdërlin na cena final é muito apropriada; Holdërlin é o poeta da reconciliação. Reconciliação da Europa de sua época, que ele julgava decadente, com as origens gregas, origens deste horizonte que se espraia sobre nós e para nós, chamado Ocidente. Mas a reconciliação em Holderlin não é presente, não se dá em um objeto; não se dá, aliás. Ela é uma promessa, um porvir.Um fantasma? Talvez. Mas um fantasma amoroso, fantasma-regaço para formas de ser e de mostrar que não são dignas deste tempo, deste mundo que nos congrega e sepulta. A utopia da aventura holdërliniano de mundo e de vida, a utopia da odisséia monteiriana de desejo e de mundo, melancolicamente cortejam sua impossibilidade; para hoje ao menos, para esta hora. Uma última coisa; esta contemplação do mundo – e do tempo que lhe corresponde- a partir de uma distância irrecuperável, de uma distância que se reflete no olhar enamorado lançado por Monteiro aos ritmos e refluxos dos corpos que se espraiam pela cidade e se confinam em seus aposentos; esta contemplação desiludida de um mundo incapaz de acatar e germinar o nosso mundo interior, deste mundo agreste recusado ao Eu lírico, deste mundo onde a reconciliação “ ainda” não é possível e onde, portanto, “ainda” não encontramos lugar para habitar; não seria esta contemplação, este olhar, o olhar de um morto?, de alguém nascido “trop tôt, trop tard”, condenado portanto, no aquém e no além desta zona crepuscular, a lançar os vaticínios- o arauto!- de um tempo para o qual ele será apenas a sombra de uma sombra?Um tempo que talvez- se houvesse tempo!- fosse o seu tempo, ou o tempo de uma obra germinar e frutificar outros parceiros, cúmplices, sombras? O último mergulho é esta obra. À espera de um tempo e de um mundo que lhe cor-respondam. Ainda mais que Vai e vem, O último mergulho é o filme-testamento de João César Monteiro. E o que significa testamento senão este apelo que o morto lança ao futuro improvável e postergável de sua redenção? Link para download

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*